REFERÊNCIA CLÍNICA
Classificação ASA na veterinária: o que cada classe significa e o que ela muda no plano
A classificação de estado físico da American Society of Anesthesiologists nasceu na medicina humana, em 1963, e é hoje a ferramenta mais usada no mundo para estratificar paciente antes de anestesia, inclusive em cão e gato.
Ela é curta: cinco classes e uma letra. E é por ser curta que costuma ser mal usada, atribuída no corredor, sem critério, muitas vezes descrevendo a cirurgia em vez do paciente.
Referência clínicaAtualizado em 12 min de leitura
Resumo
- A escala ASA descreve o estado físico do paciente, não a dificuldade nem a invasividade do procedimento que ele vai sofrer.
- São cinco classes, de I (hígido) a V (moribundo, sem expectativa de sobrevivência sem o procedimento), mais a letra E acrescida quando o caso é emergência.
- No estudo CEPSAF, o risco global de óbito relacionado à anestesia ou sedação foi de 0,17% em cães e 0,24% em gatos.
- Nesse mesmo estudo, animais classificados como ASA I–II tiveram risco de 0,05% (cão) e 0,11% (gato); em ASA III–V, o risco subiu para 1,33% e 1,40%.
- A classe é atribuída depois do exame físico e da avaliação pré-anestésica, nunca antes, e nunca a partir do nome da cirurgia agendada.
O que a escala mede, e o que ela não mede
A escala responde a uma pergunta só: em que estado fisiológico este animal chega à indução? Nada além disso. Ela não pergunta quanto tempo a cirurgia vai durar, quem vai operar ou quanto equipamento existe na sala. Quem escreveu a versão original foi explícito: nenhuma tentativa deve ser feita de prognosticar o efeito de um procedimento cirúrgico sobre um paciente de determinado estado físico.
A complexidade do procedimento não é irrelevante, é uma segunda variável, registrada em outro lugar. O risco perioperatório real combina estado físico, natureza e duração do procedimento, urgência, equipe e monitorização disponíveis. A escala responde por uma dessas parcelas.
As cinco classes e o modificador E
Os exemplos abaixo são ilustrativos: quem define a classe é o estado do animal na sua frente, não o nome do diagnóstico.
| Classe | Definição | Exemplo em pequenos animais | Implicação prática |
|---|---|---|---|
| ASA I | Paciente hígido, sem doença sistêmica identificada. | Cadela de 1 ano para OSH eletiva; gato jovem para orquiectomia eletiva. | Menor risco da escala. Não risco ausente. |
| ASA II | Doença sistêmica leve, compensada, sem limitação funcional relevante. | Diabético estável e compensado; sobrepeso moderado; geriátrico sem doença descompensada; fratura simples sem repercussão sistêmica. | Plano de rotina, com atenção dirigida à comorbidade. Vale registrar por que não é I. |
| ASA III | Doença sistêmica grave, com repercussão sobre a função, mas sem ameaça constante à vida. | Doença renal crônica intermediária; cardiopata com sinais clínicos sob tratamento; paciente oncológico com repercussão sistêmica. | Limiar em que a conduta muda: estabilizar antes, ampliar monitorização, separar quem anestesia de quem opera. |
| ASA IV | Doença sistêmica grave que representa ameaça constante à vida. | Piometra com sinais de sepse; cetoacidose diabética; insuficiência cardíaca descompensada; obstrução uretral com hipercalemia. | Estabilização deixa de ser opcional e a conversa com o responsável pelo animal muda de tom. |
| ASA V | Paciente moribundo, sem expectativa de sobrevivência sem o procedimento proposto. | Dilatação-vólvulo gástrico com choque instalado; hemoabdômen por ruptura de massa esplênica com instabilidade hemodinâmica. | A anestesia é a única via de sobrevivência e ainda assim pode matar. |
| Modificador E | Acrescido à classe quando o adiamento aumentaria de forma significativa a ameaça à vida ou a um órgão. | “ASA IV-E” na piometra séptica operada na mesma noite; “ASA II-E” na úlcera de córnea perfurante em animal hígido. | A avaliação pré-anestésica foi limitada por necessidade, e o risco supera o da mesma classe eletiva. |
Como atribuir sem inflar nem esvaziar
A escala é subjetiva por construção: em um levantamento com 144 anestesistas avaliando 16 casos teóricos de pequenos animais, houve variabilidade moderada entre os avaliadores, e a discordância aumentou justamente nos casos mais graves. Não há cura para isso, mas há disciplina. Três perguntas resolvem a maioria das atribuições, nesta ordem:
- Existe doença sistêmica identificada? Se não, é I. Se sim, siga.
- Essa doença limita a função do animal no dia a dia? Se não limita e está compensada, é II. Se limita, é ao menos III.
- Essa doença é uma ameaça constante à vida, agora, independentemente da cirurgia? Se sim, é IV. Se o animal não sobrevive sem o procedimento, é V.
Depois disso, e só depois, pergunte se o adiamento agrava o quadro. Se agrava, acrescente o E.
Os dois desvios têm assinatura diferente. Inflar vem do procedimento contaminando a avaliação, o paciente vira III porque a cirurgia é grande. Esvaziar vem da pressa: a classe sai antes do exame físico completo, com base na agenda, e um geriátrico com sopro é registrado como I porque “é só uma limpeza dentária”.
Esvaziar é o desvio mais caro, porque não aparece: o animal recebe o plano de ASA I e o descompasso só se revela quando algo dá errado. Gato aparentemente hígido pode carregar cardiomiopatia subclínica sem sopro audível, parte do excesso de mortalidade em felinos “saudáveis” provavelmente vem daí. Um exame físico completo e registrado antes de qualquer indução é o piso, não o extra.
Os números: o que o CEPSAF mostrou
O maior conjunto de dados sobre mortalidade anestésica em pequenos animais é o CEPSAF, Confidential Enquiry into Perioperative Small Animal Fatalities, coorte prospectiva conduzida por Brodbelt e colaboradores em 117 centros do Reino Unido entre 2002 e 2004, com 98.036 cães e 79.178 gatos.
| Grupo | Cão | Gato |
|---|---|---|
| Risco global | 0,17% | 0,24% |
| Classificados ASA I–II (“hígidos”) | 0,05% (1 em 1.849) | 0,11% (1 em 895) |
| Classificados ASA III–V (“doentes”) | 1,33% | 1,40% |
| Óbitos ocorridos no período pós-operatório | 47% | 61% |
| Óbitos com causa cardiovascular ou respiratória | 74% | 72% |
- O salto está no III. Em análise ajustada, cães com ASA III ou mais tiveram cerca de 3,3 vezes as chances de óbito relacionado à anestesia até 24 horas, e gatos com ASA III ou mais, cerca de 6,4 vezes as chances até 48 horas, em comparação com animais de classe inferior.
- O gato hígido morre mais que o cão hígido. 0,11% contra 0,05%. Entre os doentes, as duas espécies se aproximam. A diferença está na base da escala, não no topo.
- A morte é do pós-operatório. Quase metade dos óbitos em cães e a maioria em gatos ocorreram depois do fim do procedimento, com concentração nas primeiras três horas.
Um levantamento brasileiro em hospital veterinário universitário, com 243 cães operados em sete meses, encontrou mortalidade anestésico-cirúrgica de 2,46% e nenhum óbito entre os ASA I e os ASA II não emergenciais. As mortes se concentraram nas classes mais altas, nos casos emergenciais e no pós-operatório imediato. Casuística pequena demais para virar referência, mas o padrão é o mesmo.
O que muda a partir do ASA III
Se a classe não muda nada no plano, ela é enfeite de prontuário. Do III para cima, três coisas deixam de ser desejáveis e passam a ser parte do procedimento.
Estabilizar antes de induzir
A escala não é só descritiva: ela aponta o que precisa ser corrigido antes. As condições em que a correção prévia vai de aconselhável a crítica, pelas diretrizes da AAHA, são desidratação, anemia conforme gravidade e cronicidade, hipoglicemia, hipotermia, distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-básicos, arritmias com risco de vida, insuficiência cardíaca congestiva, cianose, oligúria ou anúria e pneumotórax, além de dor e ansiedade.
Nenhuma delas é item opcional em paciente ASA III ou IV. Em eletiva, corrigir e reagendar é conduta, não recuo. Em emergência, corrigir o que der no tempo que houver, e registrar o que não deu.
Ampliar a monitorização e dedicar alguém a ela
As diretrizes de anestesia e monitorização da AAHA listam, entre as ações que reduzem risco, um anestesista dedicado ao paciente, acesso venoso, suplementação de oxigênio, monitorização respiratória e cardiovascular, avaliação do ritmo cardíaco, manutenção da temperatura corporal, vigilância continuada na recuperação e documentação dos parâmetros do início ao fim.
“Anestesista dedicado” é a parte que mais se perde em clínica pequena. Quem está operando não está monitorando, em ASA III ou mais, essa sobreposição é o furo mais previsível do plano. Some a isso o horário: procedimentos no fim do expediente carregam risco aumentado, por tempo insuficiente de estabilização, equipe reduzida e fadiga. Paciente crítico entra cedo.
Mudar a conversa com o responsável
A classe é a forma mais direta de comunicar comorbidade a quem responde pelo animal sem transformar a conversa em aula de fisiopatologia. Explique o que a classificação descreve, o que ela implica em preparo e vigilância, e o que muda se houver estabilização antes. Consentimento em ASA IV-E é uma conversa diferente da de uma castração eletiva, e a diferença precisa aparecer no papel assinado. Como estruturar esse documento está no termo de consentimento veterinário.
A classe e a avaliação pré-anestésica
A ordem importa e costuma ser invertida na prática. A classe não determina quais exames pedir: ela é o resultado da avaliação. Primeiro a anamnese, o exame físico e os exames dirigidos; depois a classificação; depois o plano. O que entra nessa avaliação:
- Histórico: doenças conhecidas, reações adversas prévias a fármacos, anestesias anteriores e como foram as recuperações, e tudo o que o animal usa, inclusive o que o responsável não considera medicamento.
- Exame físico completo, realizado e documentado nas 12 a 24 horas anteriores, repetido imediatamente antes se houver mudança clínica aguda.
- Banco de dados laboratorial dirigido ao caso, com eletrocardiograma, aferição de pressão e imagem quando a comorbidade pedir.
- Idade, porte, raça e temperamento, variáveis que somam risco sem necessariamente mudar a classe.
Não há evidência definindo intervalo mínimo entre a análise laboratorial e a anestesia. Até três a seis meses é razoável quando os valores eram normais e o animal segue clinicamente hígido; se havia alteração ou o estado de saúde mudou, repita imediatamente antes do procedimento.
E a classe pode mudar entre a consulta pré-anestésica e o dia do procedimento. Se mudou, é reatribuída e o plano é refeito, não se herda a classe da semana passada.
Como registrar para a classificação ser auditável
Uma letra sozinha no prontuário não é registro, é opinião abreviada. Meses depois, ninguém sabe se aquele “ASA II” veio de avaliação criteriosa ou de um chute na porta da sala. O registro mínimo tem quatro partes:
- A classe e o modificador. Com o E quando houver: “ASA III-E”.
- A justificativa, em uma linha. Quais achados sustentaram a classe. “ASA III por doença renal crônica com azotemia e desidratação” é auditável; “ASA III” não é.
- Quem atribuiu e quando. Nome, CRMV, data e horário. A classe da véspera e a da hora da indução são registros distintos e podem divergir, o que é informação, não erro.
- O que a classe mudou no plano. Estabilização feita antes, monitorização adicional, decisão de adiar. Sem isso, não há como demonstrar que a classificação teve consequência.
A ausência de registro de exame físico já foi associada a maior chance de óbito em cães nos dados do CEPSAF, o hábito de registrar e o de examinar andam juntos. O conteúdo exigido no prontuário e a identificação de quem registrou estão na Resolução CFMV nº 1.653/2025.
A classe é síntese interpretativa, não dado bruto. Se você organiza o atendimento em formato SOAP, ela entra no A, com os achados que a sustentam vindo do O. E se quiser o formulário com os campos já impressos, use o modelo de prontuário veterinário.
Perguntas frequentes
O que significa a classificação ASA na veterinária?
É a classificação de estado físico da American Society of Anesthesiologists, adotada em anestesia veterinária para descrever a condição fisiológica do paciente antes do procedimento. Vai de I, para o animal hígido, a V, para o moribundo que não sobrevive sem a intervenção, com a letra E acrescida nos casos de emergência.
A classificação ASA mede o risco da cirurgia?
Não. Ela descreve o estado físico do paciente, não a dificuldade, a duração ou a invasividade do procedimento. Um animal hígido que vai passar por uma cirurgia longa e complexa continua sendo ASA I. O risco perioperatório total combina a classe com o tipo de procedimento, a urgência, a equipe e a monitorização disponíveis.
Qual a diferença entre ASA III e ASA IV?
A ameaça constante à vida. Na III há doença sistêmica grave com repercussão sobre a função do animal, mas o quadro não ameaça a vida naquele momento. Na IV, a doença representa risco de morte permanente, independentemente do procedimento proposto. É a fronteira que mais gera divergência entre avaliadores.
Quando se usa o modificador E?
Quando adiar o procedimento aumentaria de forma significativa a ameaça à vida do animal ou a um órgão. O E é somado à classe, nunca a substitui, escreve-se ASA II-E, ASA IV-E. Ele sinaliza que a avaliação pré-anestésica foi limitada pela urgência e que o risco supera o da mesma classe eletiva.
Qual é a taxa de mortalidade anestésica em cães e gatos?
No estudo CEPSAF, com 98.036 cães e 79.178 gatos no Reino Unido, o risco global de óbito relacionado à anestesia ou sedação foi de 0,17% em cães e 0,24% em gatos. Entre os classificados como ASA I ou II, foi de 0,05% e 0,11%; entre os de III a V, subiu para 1,33% e 1,40%.
Fontes
- The ASA Physical Status Classification: What Is the Evidence for Recommending Its Use in Veterinary Anesthesia? A Systematic Review, Portier K, Ida KK, Frontiers in Veterinary Science, 2018
- The risk of death: the Confidential Enquiry into Perioperative Small Animal Fatalities (CEPSAF), Brodbelt DC et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2008;35(5):365–373
- 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats, American Animal Hospital Association
- Classificação anestésica do estado físico e mortalidade anestésico-cirúrgica em cães, Rodrigues NM et al. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, 2018;70(3):704–712
- American Society of Anesthesiologists Physical Status Classification System, StatPearls, NCBI Bookshelf
Classifique. O registro se escreve sozinho.
O Alvio escuta a avaliação pré-anestésica e devolve os achados, a classe e a justificativa organizados no campo certo do prontuário, prontos para revisão e assinatura.
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