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REFERÊNCIA CLÍNICA

Parâmetros vitais de cães e gatos: tabela de referência para o atendimento

Valores de referência são a base de quase toda decisão clínica rápida, e são também a informação que mais se perde entre a faculdade e o consultório, porque cada livro traz uma faixa ligeiramente diferente, e porque a faixa muda com porte, idade e nível de estresse.

Esta página junta os parâmetros que se mede em qualquer atendimento, com as variações que importam na hora de decidir se um número é achado ou é ruído.

Referência clínicaAtualizado em 8 min de leitura

Resumo

  • Cão adulto: temperatura 38,0–39,2 °C, frequência cardíaca 60–160 bpm conforme o porte, frequência respiratória 10–30 mrm, TPC menor que 2 segundos.
  • Gato adulto: temperatura 38,0–39,5 °C, frequência cardíaca 140–220 bpm, frequência respiratória 20–40 mrm, TPC menor que 2 segundos.
  • A frequência cardíaca do cão varia com o porte: cães gigantes ficam na faixa de 60–90 bpm e cães de porte pequeno chegam a 140 bpm em repouso.
  • Filhotes têm frequência cardíaca e respiratória mais altas que adultos da mesma espécie, comparar filhote com faixa de adulto gera alarme falso.
  • Desidratação só se torna detectável no exame físico a partir de cerca de 5% de perda; abaixo disso o exame é normal.
  • Pelo consenso ACVIM, pressão arterial sistólica abaixo de 140 mmHg é normotensão e a partir de 160 mmHg já há risco de lesão de órgão-alvo.

Parâmetros fisiológicos de cão e gato adultos

Valores de referência em cães e gatos adultos em repouso
ParâmetroCão adultoGato adulto
Temperatura retal38,0 – 39,2 °C38,0 – 39,5 °C
Frequência cardíaca60 – 160 bpm (varia com o porte)140 – 220 bpm
Frequência respiratória10 – 30 mrm20 – 40 mrm
Tempo de preenchimento capilar< 2 segundos< 2 segundos
MucosasRóseas e úmidasRóseas e úmidas
Pressão arterial sistólica< 140 mmHg< 140 mmHg
Débito urinário1 – 2 mL/kg/h1 – 2 mL/kg/h
Escore de condição corporal4 – 5 / 95 / 9
Faixas de referência para animais adultos, em repouso e sem estresse. Fontes clínicas divergem em alguns limites; use as faixas do seu serviço quando houver padronização interna. O escore de condição corporal segue as cartas da WSAVA, que bracketam 4–5/9 como ideal no cão e apenas 5/9 no gato.

Por que a frequência cardíaca do gigante não é a do pinscher

A faixa de 60 a 160 bpm para cão adulto é ampla demais para ser útil sozinha. Ela cobre desde o dogue alemão em repouso até o cão de porte pequeno, e a diferença entre os extremos é grande o bastante para mudar conduta.

Frequência cardíaca em repouso por porte e idade no cão
GrupoFrequência cardíaca aproximada
Filhote até 12 meses120 – 180 bpm
Porte pequeno (até 10 kg)90 – 140 bpm
Porte médio (10 – 25 kg)80 – 120 bpm
Porte grande (25 – 45 kg)70 – 110 bpm
Porte gigante (acima de 45 kg)60 – 90 bpm
Cães atletas e raças de trabalho condicionadas podem apresentar frequências de repouso abaixo da faixa do seu porte sem que isso represente alteração.

No gato a variação por porte é irrelevante, o que domina é o estresse, e sobre isso há uma seção adiante.

Uma frequência respiratória vale mais quando medida em casa. Frequência respiratória em repouso acima de 30 mrm medida pelo responsável, com o animal dormindo, é um dos marcadores mais úteis de descompensação em cardiopata, e é uma tarefa que o responsável consegue executar com uma instrução de trinta segundos.

Estimativa de desidratação pelo exame físico

A estimativa clínica de desidratação é grosseira por natureza, e saber disso faz parte de usá-la bem: abaixo de aproximadamente 5% de perda não há sinal detectável ao exame físico.

Correlação entre achados de exame físico e grau de desidratação
Perda estimadaAchados
< 5%Sem alteração detectável ao exame físico
5 – 6%Discreta perda de turgor cutâneo
6 – 8%Turgor cutâneo diminuído, mucosas secas, TPC no limite
8 – 10%Turgor nitidamente reduzido, mucosas secas, enoftalmia, TPC prolongado
10 – 12%Achados anteriores somados a sinais de choque: taquicardia, pulso fraco, extremidades frias
> 12%Choque descompensado, risco de óbito iminente
Turgor cutâneo perde confiabilidade em animais caquéticos, obesos e geriátricos. Nesses pacientes, priorize mucosas, posição do globo ocular, qualidade de pulso e variação de peso.

O parâmetro mais confiável para acompanhar reposição não está nesta tabela: é o peso. Uma balança e duas pesagens dizem mais sobre balanço hídrico do que qualquer estimativa de prega cutânea.

Pressão arterial: as faixas do consenso ACVIM

A classificação de pressão arterial em cães e gatos segue o consenso do American College of Veterinary Internal Medicine, que organiza as faixas pelo risco de lesão de órgão-alvo, olho, rim, coração e sistema nervoso central, e não por um simples “alto ou baixo”.

Classificação da pressão arterial sistólica em cães e gatos segundo o consenso ACVIM
SistólicaClassificaçãoRisco de lesão de órgão-alvo
< 140 mmHgNormotensoMínimo
140 – 159 mmHgPré-hipertensoBaixo
160 – 179 mmHgHipertensoModerado
≥ 180 mmHgHipertensão graveAlto
Medida em ambiente calmo, com o animal aclimatado, manguito de largura correspondente a cerca de 40% da circunferência do membro, descartando a primeira leitura e usando a média das seguintes.

A técnica importa tanto quanto o número. Manguito estreito demais superestima a pressão; medida no primeiro minuto de contenção mede estresse, não hemodinâmica.

O gato do consultório não é o gato de casa

Boa parte dos valores alterados que aparecem em um atendimento felino de rotina são efeito do transporte e da contenção, não do paciente. Isso não é anedota de clínica: é o motivo pelo qual a faixa de frequência cardíaca do gato se estende até 220 bpm.

Três alterações que o estresse produz e que se confundem com doença:

  • Hiperglicemia. Gatos estressados produzem glicemia elevada por descarga de catecolaminas. Diagnosticar diabetes com base em uma glicemia única de consultório é erro clássico, frutosamina existe para isso.
  • Hipertensão do jaleco branco. Elevações de 20 a 30 mmHg por estresse de manipulação são esperadas e podem jogar um normotenso para dentro da faixa de pré-hipertensão.
  • Taquipneia e hipertermia. Transporte em dia quente eleva temperatura e frequência respiratória por conta própria.

Como registrar para o número virar informação

Um valor sem contexto envelhece mal. “FC 190” em um felino não diz nada seis meses depois; “FC 190, aferida após 10 min de aclimatação, animal tenso, em caixa de transporte” diz.

Um caso à parte é o escore de condição corporal: ele é a única medida desta página que depende de uma escala interpretada, e a escala do cão não é a do gato. O guia do escore de condição corporal destrincha os nove pontos de cada espécie e a avaliação de massa muscular, que é um eixo separado.

O mínimo que acompanha cada medida:

  • Momento da aferição em relação ao exame, antes ou depois da manipulação.
  • Estado comportamental do animal: calmo, tenso, agressivo, sedado.
  • Método e equipamento, quando houver mais de um em uso no serviço.
  • Para pressão: manguito usado, membro, número de leituras e média.

Tudo isso pertence ao Objetivo do registro clínico. Se você organiza o prontuário em SOAP, é exatamente esse o campo, o guia do prontuário SOAP mostra onde cada tipo de dado cai. E se quiser o formulário pronto com os campos de parâmetros já impressos, use o modelo de prontuário veterinário.

Perguntas frequentes

Qual a temperatura normal de um cão?

Entre 38,0 °C e 39,2 °C em repouso, medida por via retal. Filhotes e animais que acabaram de se exercitar podem apresentar valores no limite superior sem que haja alteração. Acima de 39,5 °C considera-se hipertermia e é preciso diferenciar febre de hipertermia por causa externa.

Qual a frequência cardíaca normal de um gato?

De 140 a 220 bpm em gatos adultos. A faixa é ampla porque o estresse do consultório eleva a frequência de forma significativa. Um valor de 220 bpm em um animal tenso não tem o mesmo significado que o mesmo valor em um animal calmo e aclimatado.

Por que a frequência cardíaca do meu paciente não bate com a tabela?

Porte, idade, condicionamento físico, temperatura ambiente, dor e estresse mudam o valor. No cão a variação por porte é grande, de cerca de 60 bpm em um gigante a 140 bpm em um cão pequeno. Compare sempre com a faixa do grupo do paciente, não com a faixa geral da espécie.

A partir de quanto a desidratação aparece no exame físico?

A partir de cerca de 5% de perda. Abaixo disso o exame físico é normal, o que significa que um animal pode estar desidratado e não apresentar nenhum sinal detectável. Em pacientes caquéticos, obesos ou geriátricos, o turgor cutâneo perde confiabilidade e é preciso apoiar a estimativa em mucosas, pulso, posição do globo ocular e variação de peso.

Qual valor de pressão arterial indica hipertensão em cães e gatos?

Pelo consenso ACVIM, sistólica de 160 a 179 mmHg caracteriza hipertensão com risco moderado de lesão de órgão-alvo, e valores iguais ou acima de 180 mmHg caracterizam hipertensão grave, com risco alto. Entre 140 e 159 mmHg o animal é classificado como pré-hipertenso.

Preciso registrar os parâmetros mesmo quando estão normais?

Sim. Um campo em branco não distingue “examinei e estava normal” de “não examinei”. Além de ser uma exigência de registro do exame clínico no prontuário, o valor normal de hoje é a linha de base contra a qual você vai comparar o valor de daqui a um ano.

Mede, olha, decide. Escrever é com a gente.

O Alvio escuta a consulta e devolve os parâmetros já organizados no campo certo do prontuário, com o resto do registro pronto para revisão.

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