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DOCUMENTAÇÃO E CFMV

Atestado de saúde animal para viagem: o que o médico-veterinário assina

Alguém liga na segunda: viaja na quinta, precisa do atestado. O animal você conhece, o embarque não é seu problema, o documento sai em cinco minutos. É esse o momento em que a assinatura vira responsabilidade sua e de mais ninguém.

Quase tudo o que se publica sobre esse documento é escrito para quem viaja. Este texto é para quem assina.

Base normativa: Resolução CFMV nº 1.321/2020, com a redação que a Resolução nº 1.653/2025 deu a alguns dispositivos. O trecho aéreo e o internacional são governados por normas que não são do Conselho.

Documentação e CFMVAtualizado em 14 min de leitura

Resumo

  • O documento que a Resolução CFMV nº 1.321/2020 define no Art. 2º, III chama-se atestado sanitário ou de saúde animal, e declara o estado de saúde na data do exame.
  • Atestar a sanidade é privativo do médico-veterinário (Art. 4º), e o Art. 5º cobra três conteúdos: estado de saúde, medidas sanitárias oficiais atendidas e imunizações descritas.
  • Nenhuma resolução do CFMV fixa validade para o atestado: o prazo de dez dias vem do contrato da empresa aérea e do país de destino, não da norma profissional.
  • Em viagem internacional o atestado não é o documento de trânsito: ele alimenta o Certificado Veterinário Internacional, emitido pelo Vigiagro/MAPA.
  • Atestados sanitários seguem excetuados da regra das duas vias, então nenhuma via fica arquivada com você, o prontuário é a única memória do que foi atestado.

O que você está assinando, e o que não está

O nome usado no balcão é “atestado de viagem”. Esse documento não existe na norma. O que existe é o atestado sanitário, também chamado de atestado de saúde animal:

atestado sanitário ou de saúde animal: documento escrito, sem rasuras ou emendas, datado, emitido e assinado privativamente por médico-veterinário para declarar o estado ou condições de saúde do(s) animal(is)
Resolução CFMV nº 1.321/2020, Art. 2º, III

Duas palavras carregam o peso. “Declarar”, você afirma um fato, não opina sobre a viabilidade da viagem. E “datado”, o que você declara vale para a data em que examinou, e para nenhuma outra. O Art. 4º fecha o ponto: atestar sanidade, vacinação e óbito é privativo do médico-veterinário.

O que esse documento não é:

  • Não é o Certificado Veterinário Internacional. O CVI é oficial, emitido pelo Vigiagro/MAPA. O seu atestado é insumo dele.
  • Não é o Passaporte para Trânsito de Cães e Gatos. Também é documento do MAPA, vitalício, e no trânsito nacional substitui o atestado impresso.
  • Não é a carteira de vacinação nem laudo de exame. Sorologia antirrábica e testes têm laudo próprio, com assinatura própria.

O conteúdo mínimo, artigo por artigo

O atestado responde a dois artigos ao mesmo tempo: o Art. 3º, que vale para todo documento emitido por médico-veterinário, e o Art. 5º, específico deste.

  • Sua identificação completa (Art. 3º, IV). Nome, assinatura, inscrição no Sistema CFMV/CRMVs, endereço, telefone e e-mail; havendo estabelecimento, razão social, CNPJ e registro.
  • Identificação do paciente (Art. 3º, VI). Nome, sexo, raça, idade real ou presumida, cor da pelagem, sinais particulares, tatuagem, brinco, microchip, registro genealógico e, se for o caso, resenha detalhada.
  • Identificação do responsável pelo animal (Art. 3º, VII). Nome completo, CPF e endereço completo. Telefone não identifica ninguém civilmente.
  • Os três conteúdos do Art. 5º. Informar o estado de saúde do animal, declarar que foram atendidas as medidas sanitárias oficiais e descrever as imunizações.

O modelo do Anexo I da própria resolução resume isso em uma frase que vale reler devagar:

Atesto para os devidos fins que foi por mim examinado nesta data o animal abaixo identificado, o qual apresentou bom estado geral de saúde durante o exame clínico, e que se encontram atendidas as medidas sanitárias definidas pelo(s) Serviço(s) Médico-Veterinário(s) Oficial(is), quando aplicável
Anexo I da Resolução CFMV nº 1.321/2020

“Foi por mim examinado nesta data” é a declaração inteira. O Art. 12 permite adaptar os modelos dos anexos desde que preservado o conteúdo mínimo, do mesmo jeito que o modelo de prontuário pode ser reformatado sem perder campos obrigatórios. O que não dá para adaptar é a frase que afirma o exame.

“Válido por 10 dias” não é regra do CFMV

Procure prazo de validade na Resolução nº 1.321/2020 e não encontra. O modelo do Anexo I não tem campo de vencimento. O que existe é a data do exame, e a partir dela cada exigente conta o seu próprio prazo. Quando alguém diz que “o atestado vale dez dias”, a pergunta correta não é se é verdade, é para quem. A resposta muda o dia em que você examina o animal.

De onde vem o prazo do atestado de saúde, conforme quem o exige
Quem exigeJanelaContada até
Resolução CFMV nº 1.321/2020Não fixa prazo algum-
Voo doméstico, regra publicada pela GOL10 dias corridosA partir da emissão
Requerimento do Passaporte para Trânsito de Cães e Gatos (MAPA)10 diasDa emissão até a entrega do requerimento
CVI para países do Mercosul10 diasQue antecedem a emissão do CVI
CVI para a União Europeia, animal sem valor comercial10 diasQue antecedem o embarque
CVI para a União Europeia, animal com valor comercial48 horasQue antecedem o embarque
CVI para os Estados Unidos5 diasQue antecedem o embarque
A linha aérea reproduz o material público da GOL; cada empresa publica a sua e pode alterá-la sem aviso, então reconfirme na emissão da passagem. As demais vêm dos guias do CRMV-SP com o SVA/GRU e o Anffa Sindical, o de atestados é da 2ª edição, de 2018, e requisito de país muda: confira o modelo vigente no Sisrec ou no Vigiagro antes de marcar o exame.

Voo dentro do Brasil: quem manda é o contrato de transporte

Não existe norma federal única dizendo o que um cão precisa apresentar para embarcar de São Paulo para Recife. A Portaria ANAC nº 17.476/SAS, de 18 de julho de 2025, em vigor desde 20 de outubro de 2025, organiza o transporte aéreo de animais, e a forma como trata documento é reveladora.

O Art. 6º, VII manda a empresa aérea informar, desde a venda da passagem, quais são os “documentos sanitários e de saúde animal exigidos na legislação nacional e no país de destino”. O Art. 9º manda o responsável pelo animal apresentar essa comprovação quando solicitado, sob risco de restrição de embarque. Em nenhum ponto a portaria diz qual documento, com que conteúdo, por quantos dias. A ANAC delega; quem define é cada empresa.

  • O prazo que vale é o da companhia do bilhete, não o da que você atendeu no mês passado.
  • Um mesmo atestado pode ser aceito na ida e recusado na volta, se houver troca de empresa.
  • A conferência no aeroporto é documental. Ninguém vai discutir resolução do CFMV ali.

A GOL, por exemplo, pede em seu material público um atestado sanitário mostrando que o animal está em boas condições para viajar em aeronave, com raça, nome, idade, origem e, no serviço com espaço reservado, a informação sobre braquicefalia. Válido por até dez dias corridos da emissão, com a carteira de vacinação.

Internacional: onde o seu atestado entra na cadeia

A certificação sanitária internacional de animais é privativa do MAPA. O CVI é gratuito e é emitido por Auditor Fiscal Federal Agropecuário do Vigiagro a partir das informações previamente atestadas por um médico-veterinário escolhido pelo interessado. Esse médico-veterinário é você.

  1. O responsável pelo animal levanta os requisitos do país de destino e a data do voo.
  2. Você examina e emite o atestado dentro da janela daquele destino, com as imunizações e os tratamentos que o modelo de CVI pede.
  3. Ele apresenta atestado, carteira, laudos e comprovante de microchip ao Vigiagro, presencialmente ou, nos destinos habilitados, pelo pedido eletrônico no gov.br.
  4. O auditor confere e emite o CVI, e a autoridade veterinária do destino confere o animal contra ele na chegada.

É o último passo que explica por que o segundo existe. Divergência entre o animal e o que está escrito no CVI pode gerar quarentena ou devolução ao Brasil, e o que está no CVI veio, quase todo, do seu atestado. Uma exceção pega de surpresa: para o Japão, o médico-veterinário responsável pelo exame clínico assina um campo dentro do próprio CVI.

As janelas de vacinação antirrábica são o que mais reprova embarque, e o intervalo varia com o destino:

Exigências de vacinação antirrábica por destino, cães e gatos
DestinoPrimovacinaçãoReforço e sorologia
Voo doméstico, regra publicada pela GOLObrigatória a partir dos 3 meses, aplicada no mínimo 30 dias antes da viagemReforço dispensa os 30 dias; vacina válida por 1 ano da aplicação
Mercosul (CVI)Pelo menos 21 dias antes da emissão do CVIReforço dentro do prazo de ação da dose anterior dispensa os 21 dias
União Europeia (CVI)Animal com no mínimo 12 semanas, e só vale se aplicada depois do microchip ou da tatuagemSorologia igual ou superior a 0,5 UI/mL, colhida 30 dias após a vacinação e 3 meses antes da emissão do CVI
Japão (CVI)A partir do 91º dia de vida, duas doses, a segunda no mínimo 30 dias após a primeiraSorologia igual ou superior a 0,5 UI/mL, colhida após a segunda dose e 180 dias antes da chegada
Linha doméstica: material público da GOL. Linhas de CVI: Guia para Emissão de Atestado de Saúde de Pequenos Animais, 2ª edição (CRMV-SP, SVA/GRU e Anffa Sindical), de 2018. Requisitos de país mudam sem aviso, confirme o modelo de CVI vigente antes de vacinar.

As regras europeia e japonesa invertem a ordem que a clínica faz por hábito: microchipar depois de vacinar invalida a vacina. E a aritmética da sorologia é implacável, três meses até a emissão do CVI para a Europa, cento e oitenta dias até a chegada ao Japão. Quem procura você faltando três semanas para o voo já perdeu a viagem, e é melhor dizer isso na primeira consulta.

O exame que sustenta a assinatura

O texto do atestado afirma que o animal foi examinado naquela data e apresentou bom estado geral de saúde. Se o exame não aconteceu, ou aconteceu como um olhar rápido sobre o balcão, a afirmação é falsa, e está assinada com o seu CRMV.

O Código de Ética do Médico-Veterinário, Resolução CFMV nº 1.138/2016, veda no Art. 8º, III atestar de forma ilegível ou assinar sem preenchimento prévio atestados, certificados e guias de trânsito, porque assinatura em documento incompleto é o que permite que outra pessoa escreva o resto. O que sustenta o atestado é o registro do exame, e é aí que os parâmetros vitais aferidos deixam de ser rotina e viram prova.

O mínimo defensável antes de assinar, para um animal que vai embarcar:

  • Peso, temperatura, frequências cardíaca e respiratória, hidratação, mucosas e tempo de preenchimento capilar.
  • Pele e pelagem, com registro de lesões, cicatrizes e ectoparasitas, inclusive os que não impedem a certificação, mas que a autoridade do destino vai enxergar.
  • Ausculta cardiopulmonar, com atenção redobrada em braquicefálicos.
  • Leitura do microchip com o animal na sua frente, conferindo o número contra o que vai para o documento.
  • Datas da carteira conferidas contra a janela do destino, não contra o calendário vacinal.
  • Estado fisiológico: gestação, pós-parto recente, idade mínima exigida pela empresa ou pelo país.

E aqui está a armadilha estrutural deste documento. Depois da Resolução nº 1.653/2025, o Art. 3º, I passou a admitir vias físicas e/ou digitais, mas manteve os atestados sanitários fora da regra das duas vias: o atestado sai inteiro com o responsável pelo animal, e nenhuma via fica arquivada por força daquele inciso. O mesmo Art. 3º, porém, começa dizendo que os documentos emitidos compõem o prontuário do paciente. A prova de que você examinou tem que estar no registro do atendimento, porque não vai estar em nenhum outro lugar: destino, exame com os achados normais, leitura do microchip, datas conferidas, teor exato do que foi declarado e as orientações dadas sobre jejum, contenção e riscos do transporte.

Perguntas frequentes

O atestado de saúde animal tem validade de quantos dias?

Nenhuma resolução do CFMV fixa validade. O atestado é datado e declara o estado de saúde na data do exame. Os prazos vêm de quem exige o documento: o contrato da empresa aérea, o requerimento do passaporte do MAPA ou o país de destino. Dez dias é o mais comum, mas há destinos que pedem cinco ou 48 horas.

Posso emitir o atestado sem examinar o animal na data?

Não. O modelo do Anexo I da Resolução CFMV nº 1.321/2020 declara que o animal foi examinado naquela data, e o Art. 5º exige informar o estado de saúde. O Código de Ética ainda veda assinar atestados e certificados sem preenchimento prévio.

Preciso emitir o atestado de saúde em duas vias?

Não. O Art. 3º, I da Resolução nº 1.321/2020, com a redação dada pela Resolução nº 1.653/2025, exceta expressamente os atestados sanitários, os prontuários e as carteiras de vacinação da regra das duas vias. Por consequência, o registro do que foi atestado precisa estar no prontuário do paciente.

O médico-veterinário emite o Certificado Veterinário Internacional?

Não. O CVI é emitido por Auditor Fiscal Federal Agropecuário das unidades do Vigiagro, do MAPA, e é gratuito. O papel do médico-veterinário é examinar o animal e emitir o atestado e os laudos que embasam o certificado. A exceção é o Japão, cujo modelo prevê um campo assinado pelo responsável pelo exame clínico.

A antirrábica aplicada na semana da viagem serve?

Depende do destino e de ser primovacinação ou reforço. Nas regras publicadas pela GOL para voo doméstico, a primeira dose exige no mínimo 30 dias antes da viagem, e reforços não exigem essa espera. Para o Mercosul são 21 dias antes da emissão do CVI. União Europeia e Japão acrescentam sorologia com prazos próprios.

O passaporte do MAPA substitui o atestado de saúde?

No trânsito nacional, sim: o passaporte é aceito no lugar do atestado impresso, e o item de exame clínico passa a ser preenchido pelo médico-veterinário. Para emitir o passaporte, porém, o MAPA exige um atestado com validade máxima de dez dias da emissão até a apresentação do requerimento.

O exame que sustenta o atestado precisa estar escrito.

O Alvio escuta a consulta e devolve o registro pronto, achados, parâmetros e orientações dadas ao responsável pelo animal. Você revisa, assina e emite o documento com o que de fato encontrou.

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