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GESTÃO DA CLÍNICA

Quanto cobrar por uma consulta veterinária: o método, com a conta feita

É a pergunta que mais aparece em grupo de veterinário e a que mais recebe resposta ruim. “Cobre o que a região cobra” não é método, é a forma mais rápida de herdar o erro de precificação do vizinho.

Preço de consulta não sai de tabela nem de pesquisa de mercado. Sai de uma conta: quanto custa uma hora da sua clínica funcionando, quanto dessa hora a consulta consome, e qual margem sobra depois de imposto e taxa de cartão.

Abaixo, por que não existe tabela oficial, o método completo e a conta feita com números para você trocar pelos seus.

Gestão da clínicaAtualizado em 9 min de leitura

Resumo

  • Não existe tabela de honorários obrigatória: o CADE impede que conselhos e sindicatos fixem preços, e as tabelas dos CRMVs são apenas referenciais.
  • A Lei nº 4.950-A/1966 continua servindo de referência para a remuneração mínima do médico-veterinário empregado, escalonada pela jornada.
  • O método correto parte do custo por hora clínica: custos fixos mensais divididos pelas horas realmente faturáveis, não pelas horas de porta aberta.
  • Ocupação real de agenda costuma ficar entre 60% e 70%, precificar sobre 100% das horas subestima o custo em cerca de um terço.
  • O preço final precisa absorver imposto e taxa de cartão antes da margem, e não depois.
  • Desde a Resolução CFMV nº 1.649/2025, em vigor desde 17 de outubro de 2025, é permitido divulgar preços de serviços de rotina, mas não de atos cirúrgicos.

Por que não existe tabela oficial de honorários

Muita gente procura “a tabela do CRMV” e conclui que o conselho está omisso quando não encontra. O motivo é outro: fixar preço é ilegal.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica entende que tabelas de honorários publicadas por conselhos e sindicatos configuram tabelamento de preços e infração à ordem econômica. Por isso vários CRMVs deixaram de divulgar tabelas, e os que ainda publicam algo o fazem com caráter estritamente referencial e orientativo.

O que sobrou de parâmetro legal:

  • Lei nº 4.950-A/1966. Fixa o piso salarial do médico-veterinário empregado em múltiplos do salário mínimo, escalonado conforme a jornada. Vale para vínculo empregatício e serve de referência para o custo da sua própria hora.
  • Tabelas referenciais de CRMVs e sindicatos. Servem para você saber se está muito fora da curva. Não servem como justificativa de preço nem obrigam ninguém.

O método: quanto custa uma hora da sua clínica

São cinco passos. Nenhum deles exige software de gestão, exige uma planilha e duas horas de honestidade com os próprios números.

  1. Some os custos fixos mensais. Aluguel, condomínio, folha com encargos, pró-labore, contador, energia, água, internet, softwares, licenças, seguro, marketing, manutenção e a depreciação dos equipamentos. Tudo que é pago mesmo em um mês sem nenhum atendimento.
  2. Calcule as horas clínicas faturáveis. Não são as horas de porta aberta. São as horas de agenda que efetivamente viram atendimento pago, o que significa multiplicar as horas disponíveis pela sua taxa real de ocupação.
  3. Divida um pelo outro. Custos fixos ÷ horas faturáveis = custo da hora clínica. Esse é o número que quase ninguém sabe de cor e que resolve toda a discussão.
  4. Aloque o tempo real da consulta. O tempo da consulta inclui o registro do prontuário, a orientação ao responsável e a higienização entre pacientes. Uma consulta “de 30 minutos” raramente ocupa menos de 40.
  5. Acrescente custo variável, impostos e margem. Descartáveis e insumos entram como custo direto. Imposto e taxa de cartão são percentuais sobre o preço final, então precisam ser embutidos antes da margem, não descontados depois.

A conta, com números

Clínica de pequeno porte, um consultório, um médico-veterinário em tempo integral. Os valores são ilustrativos: troque pelos seus.

Cálculo do preço da consulta a partir do custo por hora clínica
PassoCálculoResultado
Custos fixos mensaisAluguel, folha, pró-labore, contador, energia, sistemasR$ 28.000
Horas de porta aberta8 h/dia × 22 dias úteis176 h
Ocupação real da agenda176 h × 65%114 h faturáveis
Custo da hora clínicaR$ 28.000 ÷ 114 hR$ 245/h
Tempo real da consulta40 min = 0,67 h0,67 h
Custo fixo alocado à consultaR$ 245 × 0,67R$ 164
Custo variável diretoDescartáveis, higienização, impressosR$ 12
Custo total da consultaR$ 164 + R$ 12R$ 176
Imposto e taxa de cartão12% sobre o preço final-
Margem-alvo25% sobre o preço final-
PreçoR$ 176 ÷ (1 − 0,12 − 0,25)R$ 279
Valores ilustrativos, para mostrar a estrutura do cálculo. A margem-alvo é uma decisão de negócio: 25% é um ponto de partida comum, não uma recomendação.

Repare no último passo. Dividir por (1 − imposto − margem) é o que garante que a margem sobre depois dos percentuais. A conta que a maior parte das clínicas faz é outra: somar 25% sobre o custo de R$ 176, chegar a R$ 220, e então descobrir que os 12% de imposto sobre esse preço consomem R$ 26,40, sobram R$ 17,60, ou 8% de margem real, não 25%.

Três alavancas mudam esse número, e só uma delas é o preço:

  • Ocupação. Subir de 65% para 75% de ocupação derruba o custo da hora de R$ 245 para R$ 212 sem cortar nada.
  • Tempo por consulta. Reduzir 40 para 32 minutos sem perder qualidade de atendimento tira R$ 33 do custo alocado. O tempo que se recupera com mais facilidade não é o de exame, é o de digitação.
  • Preço. A última a mexer, porque é a única que o cliente sente.

O retorno grátis é um desconto que ninguém contabiliza

Quase toda clínica oferece retorno sem cobrança dentro de algum prazo. É uma prática legítima e às vezes clinicamente necessária. O problema é que ela quase nunca entra na conta.

Se um em cada três atendimentos gera um retorno gratuito de 20 minutos, o custo real da primeira consulta não é o de 40 minutos, é o de 40 mais um terço de 20, ou seja, cerca de 47 minutos. Na conta acima, o custo fixo alocado sobe de R$ 164 para R$ 191, o custo total vai a R$ 203, e o preço passa de R$ 279 para cerca de R$ 322.

Duas saídas, ambas defensáveis:

  • Precificar a consulta já incluindo o retorno esperado, e comunicar isso como valor entregue: “a consulta inclui um retorno em até 15 dias”.
  • Precificar a consulta isolada e cobrar o retorno como um atendimento mais curto e mais barato.

A saída que não funciona é a terceira, que é a mais comum: oferecer o retorno grátis sem colocá-lo em nenhuma das duas contas.

Você pode divulgar o preço da consulta?

Até 2025, não. A Resolução CFMV nº 1.649/2025, em vigor desde 17 de outubro de 2025, mudou isso depois de mais de duas décadas de regra anterior sobre publicidade na Medicina Veterinária.

  • Pode divulgar. Preços e formas de pagamento de serviços de rotina, como consulta e vacinação, respeitadas as regras éticas e o Código de Defesa do Consumidor.
  • Não pode divulgar. Preço de ato cirúrgico, porque depende de avaliação clínica individualizada e não pode ser fixado antes dela.
  • Continua proibido. Sensacionalismo, promessa de resultado e captação indevida de clientela, divulgar preço não abre a porta para anúncio agressivo.

Cinco erros de precificação que se repetem

  1. Copiar o preço do vizinho. A estrutura de custo dele não é a sua. Se ele errou, você errou junto.
  2. Não pagar a própria hora. Pró-labore fora da conta transforma prejuízo em “lucro”. Se você não está na folha, a clínica parece saudável e não é.
  3. Ignorar o tempo de registro. O prontuário leva de 5 a 15 minutos por atendimento e quase nunca entra no tempo precificado. Ou entra na conta, ou some da margem.
  4. Congelar o preço por anos. Custo sobe todo ano. Reajuste anual pequeno incomoda menos que reajuste de 30% depois de três anos parado.
  5. Dar desconto sem contrapartida. Desconto recorrente sem nada em troca vira preço novo. Se for dar, troque por algo: pacote, pagamento à vista, horário de baixa ocupação.

O terceiro item é o mais silencioso. Se você quer saber quanto tempo o registro realmente consome na sua rotina, cronometre uma semana, e depois leia sobre prontuário eletrônico veterinário, que é onde essa conta costuma ter a maior folga.

Perguntas frequentes

Existe uma tabela de honorários veterinários obrigatória?

Não. O CADE entende que a fixação de tabelas de honorários por conselhos e entidades de classe configura infração à ordem econômica. As tabelas publicadas por alguns CRMVs e sindicatos têm caráter apenas referencial e não obrigam ninguém a praticar aqueles valores.

Qual o valor médio de uma consulta veterinária no Brasil?

Não há um valor de referência que faça sentido aplicar, porque a variação entre regiões, portes de estabelecimento e especialidades é maior do que qualquer média. O número que importa é o seu custo por hora clínica: duas clínicas na mesma rua podem ter custos por hora com 60% de diferença.

Como calcular o custo por hora da minha clínica?

Some todos os custos fixos mensais, incluindo pró-labore, e divida pelas horas de agenda que realmente viram atendimento pago no mês. A taxa de ocupação real costuma ficar entre 60% e 70%, então divida pelas horas faturáveis e não pelas horas de porta aberta.

Devo incluir o meu pró-labore nos custos?

Sim, sempre. Se a sua remuneração não está nos custos, o resultado que aparece como lucro é, na verdade, o seu salário disfarçado. A Lei nº 4.950-A/1966 pode servir de referência para o piso dessa remuneração.

Posso anunciar o preço da consulta nas redes sociais?

Pode, para serviços de rotina como consulta e vacinação, desde a Resolução CFMV nº 1.649/2025, em vigor desde 17 de outubro de 2025. Preços de atos cirúrgicos continuam sem poder ser divulgados, porque dependem de avaliação clínica individualizada. Valem as regras éticas de publicidade e o Código de Defesa do Consumidor.

Com que frequência devo reajustar o preço?

Uma vez por ano, no mínimo, refazendo a conta de custo por hora em vez de aplicar um índice. Reajustes anuais moderados são muito melhor absorvidos pela clientela do que uma correção grande depois de anos de preço parado.

O tempo de digitação é o mais caro da sua agenda.

O Alvio escreve o prontuário enquanto você atende. São 5 a 15 minutos por consulta que voltam para a agenda, ou para o fim do seu dia.

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